“Hoje
tem marmelada? Tem sim senhor! E o
palhaço o que é? É ladrão de
mulher!”. O circo sempre povoou o
nosso imaginário, desde a infância.
Ele chegou ao Brasil no século 19,
com a vinda de famílias européias.
Ele logo se tornou popular e foi,
por muito tempo, a única fonte de
cultura que chegava aos rincões do
país. Hoje, a falta de incentivo do
poder público e a resistência, por
parte de alguns artistas, em mudar
as atrações e o estilo das
apresentações, fizeram com que o
número de circos tradicionais
diminuísse no Brasil.
Segundo o
ex-Coordenador Nacional de Circo, da
Fundação Nacional da Arte, ligada ao
Ministério da Cultura, Hugo Possolo,
pelo seu caráter itinerante, que
chega a se confundir com sua
natureza expressiva e com sua
estrutura de trabalho, os artistas
circenses não gozam de prestígio ou
interlocução, nem política nem
socialmente, o que se revela em uma
falta de visibilidade, embora seja
uma linguagem que vive de seu forte
apelo popular.
Em Minas
Gerais, grupos e famílias circenses
lutam para manter a tradição.
Segundo o trapezista e malabarista,
Afonso Martinho, que faz parte do
Circo Aloma, não é mais possível
sobreviver apenas da bilheteria.
Além disso, o circo tradicional
precisa se modernizar.
“A arte
circense depende de incentivos do
poder público. O apoio do governo se
tornou fundamental. Hoje não é
possível sobreviver apenas da
bilheteria. Além disso, precisamos
de recursos financeiros para
modernizar os espetáculos. A
existência do circo é fundamental.
Ele é a única fonte de cultura que
consegue alcançar as cidades
pequenas, escondidas no interior. Às
vezes, o espetáculo circense é o
único espetáculo que os moradores
destas cidades conseguem assistir”,
desabafa.
A
modernização do circo é um assunto
polêmico entre os próprios artistas.
Muitos acreditam que a tradição deve
ser preservada, por temerem que a
arte original desapareça. Para
Moisés, O Rei do Pedal, o circo
sempre atrairá o público, basta ele
chegar até a cidade.
“Enquanto
existir criança, o circo vai
existir. O circo é milenar. Ele faz
parte do mundo, faz parte do ser
humano. Infelizmente, o problema que
o circo enfrenta é a dificuldade de
locomoção. Há muita burocracia,
impostos altos e falta de espaço
para levantar a tenda. Ao contrário
das peças, que os atores encontram
um teatro pronto, com iluminação e
camarim, o dono do circo tem que se
preocupar com a arquibancada,
banheiro, som, comida, música, além
do espetáculo. Por causa disso, a
maioria não consegue viver apenas do
circo”, relata Moisés que sobrevive
alugando e vendendo tendas, apesar
de ser artista há mais de 30 anos.
Representantes de famílias e grupos
circenses mineiros começaram a se
reunir, há dois anos, para discutir
os problemas enfrentados pelo setor
e elaborar propostas com o objetivo
de resgatar o papel do circo na
cultura do Estado. Um dos pontos
mais debatidos é a distribuição de
verbas, realizada pela Secretaria
Estadual de Cultura. No primeiro
edital, divulgado este ano, apenas
setenta e cinco mil reais, de um
total de um milhão, destinado às
artes cênicas, seriam distribuídos
aos circenses de Minas Gerais.
Segundo a diretora da Rede de Apoio
ao Circo, Eliane Maris, a falta de
visibilidade do setor faz com que o
circense seja visto como um artista
menor.
“Há muito
preconceito por parte do poder
público, em relação à arte circense.
Esse descaso com os artistas nos
motivou a criar a Rede de Apoio ao
Circo. Nós queremos mobilizar a
categoria e reivindicar uma maior
atenção por parte do Estado”,
defende.
Depois de
várias reuniões e discussões, a
Secretaria Estadual de Cultura
decidiu realizar um novo edital,
prometendo rever a verba destinada
ao Circo, colocando-o em pé de
igualdade com o Teatro e a Dança.
Além da
luta por recursos estaduais, os
circenses também têm que enfrentar a
barreira do preconceito. Muitos
prefeitos impedem a entrada dos
grupos nas cidades, alegando que
eles bagunçam as vias públicas, não
deixam recursos para os municípios e
perturbam a ordem. Segundo Lindomar
Simões, do circo Irmãos Simões, a
desconfiança, por parte de alguns
dirigentes ainda é grande.
“A
natureza do Circo é ir de uma cidade
para outra. Como que um grupo, que
fica no máximo quinze dias em um
lugar, pode pagar taxas de luz e
água iguais a outros eventos? Muito
prefeito também acha que a gente
chega na cidade só para sujar e
fazer baderna. É falta de
consciência e de informação”,
desabafa.
Este
assunto foi levantado pela Rede de
Apoio ao Circo, em uma das reuniões
realizadas com representantes da
Secretaria Estadual de Cultura. O
órgão se comprometeu a criar uma
cartilha, que defina a arte
circense, que explique suas
características e que enfoque a sua
importância, principalmente no papel
que exerce em levar cultura a várias
cidades do interior de Minas Gerais.
Não há
dados concretos de quantos grupos
circenses ainda existem no estado. A
Rede de Apoio ao Circo já cadastrou
cerca de vinte famílias. A
expectativa é que este número
aumente, à medida que os artistas
fiquem sabendo da mobilização.
Segundo a diretora da entidade,
Eliane Maris, por causa da falta de
recursos financeiros, muitos circos
ficam parados ou até mesmo,
desaparecem.
Moisés, o
Rei do Pedal, diz que aqueles grupos
que não são formados por famílias
têm mais problemas em se manterem.
Isso porque fica cada vez mais
difícil pagar os funcionários.
“O dono
do circo é o que mais sofre nesta
estória. Ele é que tem que arcar com
tudo. Este tipo, que não é baseado
nos parentes, desaparece mais
depressa. O circo é um
empreendimento. Quando ele não tem
dinheiro, acaba mesmo. Com o circo
familiar, os laços entre as pessoas
são mais fortes e assim fica mais
fácil lutar pela sobrevivência”,
revela.
O circo
sobrevive através da paixão de seus
artistas que continuam remendando
lonas, armando arquibancadas,
limpando picadeiros e apresentando
dois ou três números, no mesmo
espetáculo. O pagamento é medíocre e
raramente a sessão é concorrida.
Mas, mesmo com um público pequeno, o
show tem que continuar.
As
crianças são, ainda, os principais
alvos do circo. Elas continuam
perseguindo a trupe pelas ruas das
pequenas cidades e esperam,
ansiosas, pelo apagar das luzes,
pela música, pela pipoca e pelo
inesperado. Os adultos, muitas vezes
relutantes em participar do show, se
surpreendem pelos malabarismos e
ousadias destes artistas.