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  reportagem
 

 

 
 
27.11.2007

Artistas circenses cobram maior incentivo por parte do poder público, na tentativa de tirar o “Maior Espetáculo da Terra” da corda bamba
Famílias circenses lutam contra o descaso, a falta de dinheiro e o desrespeito para preservar as tradições do picadeiro

“Hoje tem marmelada? Tem sim senhor! E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!”. O circo sempre povoou o nosso imaginário, desde a infância. Ele chegou ao Brasil no século 19, com a vinda de famílias européias. Ele logo se tornou popular e foi, por muito tempo, a única fonte de cultura que chegava aos rincões do país. Hoje, a falta de incentivo do poder público e a resistência, por parte de alguns artistas, em mudar as atrações e o estilo das apresentações, fizeram com que o número de circos tradicionais diminuísse no Brasil.

Segundo o ex-Coordenador Nacional de Circo, da Fundação Nacional da Arte, ligada ao Ministério da Cultura, Hugo Possolo, pelo seu caráter itinerante, que chega a se confundir com sua natureza expressiva e com sua estrutura de trabalho, os artistas circenses não gozam de prestígio ou interlocução, nem política nem socialmente, o que se revela em uma falta de visibilidade, embora seja uma linguagem que vive de seu forte apelo popular.

Em Minas Gerais, grupos e famílias circenses lutam para manter a tradição. Segundo o trapezista e malabarista, Afonso Martinho, que faz parte do Circo Aloma, não é mais possível sobreviver apenas da bilheteria. Além disso, o circo tradicional precisa se modernizar.

“A arte circense depende de incentivos do poder público. O apoio do governo se tornou fundamental. Hoje não é possível sobreviver apenas da bilheteria. Além disso, precisamos de recursos financeiros para modernizar os espetáculos. A existência do circo é fundamental. Ele é a única fonte de cultura que consegue alcançar as cidades pequenas, escondidas no interior. Às vezes, o espetáculo circense é o único espetáculo que os moradores destas cidades conseguem assistir”, desabafa.

A modernização do circo é um assunto polêmico entre os próprios artistas. Muitos acreditam que a tradição deve ser preservada, por temerem que a arte original desapareça. Para Moisés, O Rei do Pedal, o circo sempre atrairá o público, basta ele chegar até a cidade.

“Enquanto existir criança, o circo vai existir. O circo é milenar. Ele faz parte do mundo, faz parte do ser humano. Infelizmente, o problema que o circo enfrenta é a dificuldade de locomoção. Há muita burocracia, impostos altos e falta de espaço para levantar a tenda. Ao contrário das peças, que os atores encontram um teatro pronto, com iluminação e camarim, o dono do circo tem que se preocupar com a arquibancada, banheiro, som, comida, música, além do espetáculo. Por causa disso, a maioria não consegue viver apenas do circo”, relata Moisés que sobrevive alugando e vendendo tendas, apesar de ser artista há mais de 30 anos.  

Representantes de famílias e grupos circenses mineiros começaram a se reunir, há dois anos, para discutir os problemas enfrentados pelo setor e elaborar propostas com o objetivo de resgatar o papel do circo na cultura do Estado. Um dos pontos mais debatidos é a distribuição de verbas, realizada pela Secretaria Estadual de Cultura. No primeiro edital, divulgado este ano, apenas setenta e cinco mil reais, de um total de um milhão, destinado às artes cênicas, seriam distribuídos aos circenses de Minas Gerais. Segundo a diretora da Rede de Apoio ao Circo, Eliane Maris, a falta de visibilidade do setor faz com que o circense seja visto como um artista menor.

“Há muito preconceito por parte do poder público, em relação à arte circense. Esse descaso com os artistas nos motivou a criar a Rede de Apoio ao Circo. Nós queremos mobilizar a categoria e reivindicar uma maior atenção por parte do Estado”, defende. 

Depois de várias reuniões e discussões, a Secretaria Estadual de Cultura decidiu realizar um novo edital, prometendo rever a verba destinada ao Circo, colocando-o em pé de igualdade com o Teatro e a Dança.

Além da luta por recursos estaduais, os circenses também têm que enfrentar a barreira do preconceito. Muitos prefeitos impedem a entrada dos grupos nas cidades, alegando que eles bagunçam as vias públicas, não deixam recursos para os municípios e perturbam a ordem. Segundo Lindomar Simões, do circo Irmãos Simões, a desconfiança, por parte de alguns dirigentes ainda é grande.

“A natureza do Circo é ir de uma cidade para outra. Como que um grupo, que fica no máximo quinze dias em um lugar, pode pagar taxas de luz e água iguais a outros eventos? Muito prefeito também acha que a gente chega na cidade só para sujar e fazer baderna. É falta de consciência e de informação”, desabafa.

Este assunto foi levantado pela Rede de Apoio ao Circo, em uma das reuniões realizadas com representantes da Secretaria Estadual de Cultura. O órgão se comprometeu a criar uma cartilha, que defina a arte circense, que explique suas características e que enfoque a sua importância, principalmente no papel que exerce em levar cultura a várias cidades do interior de Minas Gerais.

Não há dados concretos de quantos grupos circenses ainda existem no estado. A Rede de Apoio ao Circo já cadastrou cerca de vinte famílias. A expectativa é que este número aumente, à medida que os artistas fiquem sabendo da mobilização. Segundo a diretora da entidade, Eliane Maris, por causa da falta de recursos financeiros, muitos circos ficam parados ou até mesmo, desaparecem.

Moisés, o Rei do Pedal, diz que aqueles grupos que não são formados por famílias têm mais problemas em se manterem. Isso porque fica cada vez mais difícil pagar os funcionários.  

“O dono do circo é o que mais sofre nesta estória. Ele é que tem que arcar com tudo. Este tipo, que não é baseado nos parentes, desaparece mais depressa. O circo é um empreendimento. Quando ele não tem dinheiro, acaba mesmo. Com o circo familiar, os laços entre as pessoas são mais fortes e assim fica mais fácil lutar pela sobrevivência”, revela.

O circo sobrevive através da paixão de seus artistas que continuam remendando lonas, armando arquibancadas, limpando picadeiros e apresentando dois ou três números, no mesmo espetáculo. O pagamento é medíocre e raramente a sessão é concorrida. Mas, mesmo com um público pequeno, o show tem que continuar.

As crianças são, ainda, os principais alvos do circo. Elas continuam perseguindo a trupe pelas ruas das pequenas cidades e esperam, ansiosas, pelo apagar das luzes, pela música, pela pipoca e pelo inesperado. Os adultos, muitas vezes relutantes em participar do show, se surpreendem pelos malabarismos e ousadias destes artistas.

As acrobacias podem não ter acompanhado as mudanças da pós-modernidade ou estarem distantes das manobras do Cirque Du Soleil, mas ainda encantam os moradores das pequenas cidades mineiras. Os artistas esperam, agora, maiores incentivos do poder público, como aqueles destinados à companhia canadense, para continuar levando o Maior Espetáculo da Terra aos rincões de Minas Gerais.

Ouça a música Circo

 


 


 

 
 
 

 

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