O
encontro com a Compadecida
Ganhou 4 prêmios no Grande Prêmio
Cinema Brasil, nas seguintes categorias:
Melhor Diretor, Melhor Ator (Matheus Natchergaele), Melhor Roteiro e Melhor
Lançamento. Recebeu ainda uma indicação
na categoria de Melhor Filme
Andrélia Amaral(7º período Unibh)
andreliapoliana@yahoo.com.br
Guarde bastante fôlego para assistir ao
Auto da Compadecida, afinal muitas
gargalhadas irão surgir. A cada cena é
uma nova surpresa. A harmonia entre os
atores Matheus Natchergaele (João Grilo)
e Selton Melo (Chicó) é muito forte,
isso facilita a interpretação, pois
parecem que estão brincando nas cenas e
não contracenando. Isso faz com que as
cenas sejam “naturais”. O filme já foi
interpretado por outros atores e com
títulos diferentes: A Compadecida
(1969), do gênero comédia, dirigido por
George Jonas. Os trapalhões no Auto da
Compadecida (2000), dirigido por Roberto
Farias e o Auto da Compadecida, 2000,
dirigido por Guel Arraes, todos baseados
na peça de Ariano Suassuna (1955).
Por trás do humor, existe uma visão
irônica, com uma forte crítica às
relações de desigualdade entre as
classes sociais e a igreja católica no
qual Bispo e Padre vivem da cobiça. O
Auto possui um humor escancarado que
indiretamente discute as regras da
sociedade, ateando em uma crítica ao
materialismo (Padre e Bispo). Por
exemplo, na cena em que Chico promete
entregar todo dinheiro a Nossa Senhora,
caso João Grilo sobreviva. Isso reflete
uma ação de duplo sentido. Por um lado,
pode ser uma ironia a Igreja (como já
citei acima), por outro, Chico tem
cumprir a promessa.
Um fator importante que se destaca é a
imagem de Deus. O filme apresenta Jesus
Cristo como negro e sua mãe Nossa
Senhora a Compadecida é branca. As
pessoas vêem Jesus loiro de olhos e pele
branca, e o Auto mostra o racismo e
quebra essa padronização. Existe uma
teoria transcendente, vinculada à Igreja
Católica e a idéia da salvação. O filme
aborda a época do cangaço, e resgata a
cultura do povo nordestino.A religião é
tida como fator primordial para a
população que pede clemência e
misericórdia a Nossa senhora,
principalmente para o cangaceiro
Severino.
O diretor Guel Arraes faz uma mescla de
cenas da peça de Suassuna (1995), da
literatura de Cordel, como forma de vida
do povo nordestino e a pobreza. Os
personagens têm uma posição simbólica, e
é desse simbolismo que resulta a
importância do texto. O personagem
principal é João grilo, porque tem o
papel de desenvolver as situações do
enredo. Principalmente quando faz o
apelo de misericórdia a Nossa senhora.
Algumas pessoas não gostaram do filme,
pelo fato de serem omitidas algumas
partes que foram consideradas como as
mais engraçadas, as quais passaram na
minissérie. Por exemplo, o gato que “discome”,
na qual Grilo, e Chicó tentam enganar
Dora (Denise Fraga), a esposa do
padeiro, apresentando-lhe um gato que
defecava moedas de prata. A primeira
invasão dos cangaceiros á cidade, na
qual João Grilo, que se fingia de morto
para fugir da punição pela brincadeira
do gato, finge voltar à vida por
intermédio de padre Cícero, fazendo o
bando de Severino fugir da cidade.
Porém, esses cortes não afetam a
diversão que o filme proporciona.
Em relação à linguagem, é preciso ficar
atento para não perder alguns diálogos,
pois é muito rápida. Mas é próxima do
modo de falar do povo do sertão, os
personagens possuem uma linguagem
bastante simples, com traços da fala
coloquial. Algo que chama a atenção é a
falsa “valentia” do cangaceiro, que se
disfarça de mendigo para observar a
região, o modo de vida das pessoas. Ele
ataca a cidade, porque sabe que não
existe nenhuma polícia fixa, no entanto
a polícia existente é mais covarde do
que chicó. Porém, João Grilo novamente
rouba a cena. Ao cair no golpe de Grilo,
o cangaceiro mostra a sua burrice, pois
concorda em levar um tiro para conhecer
Jesus.
Uma das melhores
partes é a hora do julgamento final. O Auto chega ao ápice nesse ponto,
o qual um Jesus negro, Nossa Senhora a Compadecida e o diabo decidem o
destino das almas pecadoras. João grilo vê-se sem saída e perdido,
destinado a queimar no inferno. No entanto a intervenção da Virgem Maria
o salva. Como todo final feliz, o desfecho é bonito. João Grilo, Chico
e sua amada Rosinha caminham pela caatinga, com Deus os observando de
longe. Eles escolhem a liberdade, mesmo que aparentemente tenham um
destino infeliz. Mas o final é nitidamente otimista, por sua condição
moral. Chico se lamenta por não ter o sonhado dinheiro. João comenta: E
será que foi melhor assim, Já pensou se a gente fica rico e fica como o
dono da padaria? Esse otimismo pode ser até chamado de insano, mas podem
comentar o que quiserem, porque é a força de um olhar sobre o povo
brasileiro, que enxerga as dificuldades da vida com muito
humor.
Curiosidades
O Auto da Compadecida
foi inicialmente produzida como uma
minissérie de 4 capítulos, exibida na
Rede Globo de Televisão em janeiro de
1998. Devido ao grande sucesso obtido, o
diretor Guel Arraes e a Globo Filmes
resolveram preparar uma versão para o
cinema, que contém 100 minutos a menos
que o tempo total da minissérie. Foi
filmado em Cabaceiras, no sertão da
Paraíba, uma cidade próxima a Taperoá,
cidade em que as aventuras de João Grilo
e Chicó são retratadas na peça teatral
de Ariano Suassuna.
Saiba mais:
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