Jornalismo
como deve ser
Leonora Malard
(7º período Unibh)
Um filme
chato e monótono. Essa é a impressão que
se tem ao começar a assistir “Boa Noite
e Boa Sorte”. Mas não se engane! Por
trás do aspecto sombrio e sem graça,
proporcionado pelos tons acinzentados, a
produção esconde uma obra inteligente e
fascinante. Diálogos ágeis e polêmicos,
como há muito tempo não se vê no cinema.
Lançado em
2005, o filme conta com George Clooney
como diretor. Ator já conceituado em
Hollywood, Clooney investe em sua
segunda experiência como diretor de
cinema. A primeira foi em 2002 com o
longa-metragem “Confissões de uma mente
perigosa”.
“Boa Noite
e Boa Sorte”, baseado em fatos reais,
narra a trajetória de um famoso âncora
de jornal, Edward Murrow (David
Strathairn), que, com sua equipe,
utilizou o programa “See It Now”, da
prestigiosa rede de televisão CBS, para
questionar as atitudes de um importante
político dos Estados Unidos nos anos 50,
o senador McCarthy. Ele destacou-se por
ser protagonista em um dos casos mais
graves de censura que os EUA já viveu. A
“caça às bruxas”, promovida pelo senador
na década de 1950, perseguia e punia
todos os cidadãos que, de alguma forma,
rejeitavam ou não contestavam seus
pensamentos. Os supostos comunistas eram
acusados e castigados sem nenhuma prova
concreta. Todos que adotavam um
comportamento diferente daquele que
McCarthy queria, eram considerados um
perigo à segurança nacional.
Constituído, basicamente, por cenas
simples, sem muitos retoques, com
praticamente nenhum efeito especial, o
longa-metragem não atrai a atenção do
espectador pela estética. Sendo assim, o
brilho da obra fica a cargo do roteiro,
muito bem elaborado.
O filme
foi financiado por uma produtora
independente que o próprio Clooney
mantém com o amigo e cineasta Steven
Soderbergh. Isso permitiu ao diretor
ousar na produção e fazer um filme com
pouco, ou nenhum, aspecto comercial.
“Boa Noite e Boa Sorte” foge aos padrões
de Hollywood, de historias extremamente
emotivas ou repletas de besteirol, e não
lotaria as salas de cinema pelo mundo.
Se o objetivo de Cloneey, ao fazer o
filme, fosse bater recorde de bilheteria
ele já estaria arrancando seus belos
cabelos grisalhos.
O objetivo
da produção é chamar a atenção para a
reflexão, para a discussão que permeia a
vida dos personagens e não atrair o
público pelo encantamento, conseguido
através de elementos estéticos como
efeitos sonoros, especiais ou recursos
avançados de imagem. Por isso, não é um
filme que irá agradar a qualquer pessoa.
Aquelas que estiverem esperando uma
grande produção hollywoodiana, com
efeitos especiais de encher os olhos, e
uma história pobre, que garanta apenas
bons momentos de gargalhadas, podem se
decepcionar. Somente aquelas pessoas que
estiverem em busca de um filme sóbrio,
com diálogo inteligente serão capazes de
reconhecer o valor desta obra.
Um aspecto interessante do filme e que,
com certeza, engana os desinformados, é
que Clooney não quis selecionar nenhum
ator para o papel de McCarthy. O diretor
usou imagens reais do senador, retiradas
de arquivo. Essa estratégia garante a
veracidade da obra, tornando-a quase um
documentário.
Toda a produção do filme é pensada para
acentuar o clima de tensão, desde as
cenas em preto e branco até as atuações
nervosas do elenco. O filme é repleto de
fumaça, vinda dos incontáveis cigarros,
de diálogos tensos, de suor e de olhares
atravessados. Os personagens são
mostrados, praticamente o tempo todo, na
redação. Não possuem vida social, exceto
quando saem para algum bar com os
próprios colegas de trabalho.
Um dos
maiores méritos está na fotografia de
Robert Elswit. As imagens esfumaçadas
contribuem para reforçar o clima de
conflito e as abundantes tomadas
fechadas nos rostos dos atores
alimentam, ainda mais, a atmosfera de
tensão.
O filme mostra-se bastante atual, apesar
de retratar a década de 1950, quando o
comparamos ao momento vivido atualmente
pelos Estados Unidos. O atual
presidente, George W. Bush, parece
seguir a mesma linha de pensamento de
McCarthy. Sua luta incansável contra o
terrorismo chega a beirar a obsessão e
aqueles que não concordam com seus
métodos são considerados, no mínimo,
anti-patriotas ou, em casos mais
extremos, de simpatizantes do
terrorismo.
“Boa Noite e Boa Sorte” é um filme
fascinante. Simplesmente produzido para
pessoas inteligentes.
Curiosidades:
- Este é o 2º filme dirigido por George
Clooney. O anterior foi
Confissões de uma Mente Perigosa (2002).
- O título original é uma referência à frase com a qual o verdadeiro
Edward R. Murrow encerrava todos os seus programas.
- George Clooney declarou que preferiu usar cenas de arquivo do
verdadeiro senador Joseph McCarthy ao invés de escalar um ator para
interpretá-lo. De acordo com Clooney, em algumas exibições de teste o
público não percebeu que se tratavam de cenas de arquivo, devido ao modo
como o verdadeiro McCarthy atuava para as câmeras.
- Boa Noite e Boa Sorte foi originalmente concebido para ser um
especial ao vivo a ser exibido pelo canal de TV CBS.
- O orçamento de Boa Noite e Boa Sorte foi de US$ 7,5 milhões.
Saiba mais:
-
www.adorocinema.com.br
-
www.goodnightandgoodluck.com
-
www.cineplayers.com
-
www.yahoo.com.br
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